Mitologia

Segundo Plínio o Velho, filósofo naturalista latino do século I D.C, a bebida teria sido criada por Aristeu, o apicultor, filho do Deus da luz Apolo com a mortal Cirene. Podemos afirmar apenas que os povos germânicos da Europa Pré-Cristã, tais como Cimbrios e Teutões consumiam uma bebida semelhante com base na fermentação da água e do mel, utilizando-a em cerimônias ritualísticas de consumação de casamento, de onde deriva o termo Lua de Mel.

Foram muitos os povos que conheceram os prazeres desta especiaria antiga, nos mais variados lugares do mundo e nas mais distintas épocas e contextos históricos, desde maias, astecas, hindus, celtas e escandinavos. Tanto que um famoso conto nórdico expressa a criação do hidromel e sua relevância no interior da cultura deste povo. Segundo consta na Eda Saga compilada pelo historiador islandês, Snorri Sturluson, os deuses adversários, Aesires e Vanires, fizeram uma trégua em sua disputa e se reuniram para selar um pacto de paz. Cada qual, nesta ocasião, cuspiu dentro de um vaso cerimonial e, da reunião de todas as salivas, surgiu Kvasir.

 

Kvasir - Divindade da Sabedoria, assassinado pelos anões.

Kvasir – Divindade da Sabedoria, assassinado pelos anões.

Este deus, contudo, acabou morto por dois anões chamados Fialar e Galar, que cobiçavam a sua sabedoria, seu atributo principal. Durante a noite, enquanto dormia, o deus foi apunhalado pelos dois perversos irmãos, tendo seu sangue sido recolhido por eles e colocado num caldeirão. Depois, tão logo chegaram em casa, misturaram-no a uma porção de mel e o fermentaram até obter o saboroso hidromel, bebida mágica que confere o dom da poesia a todo aquele que a bebe.

Durante muitos anos, os dois perversos anões gozaram das delícias desta bebida, a qual, infelizmente, se tivera o dom de torná-los poetas, não tivera o de torná-los melhores, pois continuaram a cometer, alegremente, as suas torpezas até que numa delas, mataram, por um motivo incerto, um casal de gigantes. Suttung, o filho destes, entretanto, descobriu os autores do crime e foi logo tirar satisfações, exigiu, sob pena de morte, que lhe entregassem, como reparação, o precioso caldeirão, o que eles tiveram o juízo de fazer sem pestanejar. Desde então, foi o gigante quem passou a saborear este néctar – e podemos, perfeitamente, imaginar que tenha se tornado também, senão um grande poeta, ao menos um poeta grande.

Ora, estando então entendido, é preciso dizer, agora, que este gigante tinha uma bela filha chamada Gunnlod. Era ela a guardiã do caldeirão, passando o dia e a noite inteiros a cozinhar e a provar a aromática bebida – o que, por conseqüência, deve tê-la tornado a maior poetisa de todos os tempos. Todos os dias seu pai, Suttung, passava pela caverna, onde Gunnlod morava para provar um pouco do hidromel.

Era este o melhor momento do dia, quando Gunnlod tinha a consciência de estar livre das companhias indesejadas, tendo pela frente apenas o seu delicioso ofício, o qual exercia na mais perfeita solidão das profundezas de sua caverna – um magnífico salão recoberto de estalactites vermelhos e iluminado por tochas e quartzos que esplendiam por todas as concavidades como milhares de vaga-lumes prateados engastados nas rochas. Esta sensação enchia a jovem de tamanha alegria, que ela se punha, imediatamente, a pular descalça, feito uma menina, pelos corredores e salões de pedra de seu paraíso subterrâneo, sabendo que estava livre dos problemas relesmente mundanos que afligiam ao povo da superfície.

Esta afeição de Gunnlod por subterrâneos – que destoava um pouco da sua condição de giganta – levava, muitas vezes, o pai a chamá-la, afetuosamente, de minha duendezinha. Isto, contudo, ao invés de aborrecê-la, a enchia ainda mais de orgulho.

Por esta época, entretanto, já andava pelo mundo um deus, ainda muito jovem, mas que já era sábio e dinâmico o bastante para ter criado muitas coisas. Seu nome era Odin e poucos desconheciam o seu poder e inteligência. Por muito tempo, intrigara-o o caso do infeliz deus Kvasir, morto pelos anões. Todos, em Asgard, sabiam da tragédia e a grande especulação estava voltada para o fato de se saber onde andaria o tal caldeirão do hidromel, pois todos queriam provar desta maravilhosa bebida.

Odin - O deus supremo nórdico. Divindade da sabedoria, é também o deus guerreiro da aristocracia dos nórdicos.

Odin – O deus supremo nórdico. Divindade da sabedoria, é também o deus guerreiro da aristocracia dos nórdicos.

Depois de tanto ser aborrecido com esta história, Odin decidiu-se, afinal, a ir procurar pela tal bebida. O deus seguiu a pista dos anões e, após havê-los encontrado, conseguira arrancar deles a história dos seus crimes.

Os anões confessaram que Suttung, o filho dos mortos, havia-o levado, o que bastou para Odin dar-lhes as costas e os deixar chacoalhando os joelhos em cima de duas pequenas poças amarelas. O deus dirigiu-se, imediatamente, para as terras de Suttung. Já ia a meio do caminho, quando passou por um campo onde havia nove homens ceifando. Eram os lavradores de Baugi, o irmão de Suttung. Odin percebeu, logo, que as foices que eles usavam estavam completamente cegas.

Odin não levou muito tempo para torná-las tão afiadas como eram no dia em que saíram da forja, graças à sua afiadíssima pedra de amolar.

Imediatamente, todos se precipitaram para apanhá-la. Na confusão, entretanto, foram com tanta gana à pedra, que se engalfinharam numa briga tremenda, terminando todos estendidos no solo com as gargantas cortadas.

Odin ceifou todo o campo – o que lhe custou um bocado de tempo – até que, finalmente, concluiu sua tarefa. Infelizmente, Baugi não conseguira nada com o irmão, que não queria ceder nem um único gole da preciosa bebida. Recorreram então à astúcia para que o primeiro pudesse se apoderar do seu justo prêmio.

O irmão de Suttung conduziu Odin pelas regiões elevadas onde ficava a caverna de Gunnlod, a guardiã do hidromel. Era uma grande cordilheira que eles percorreram a custo até chegar ao seu objetivo, quase ao final do dia. Ao avistar Odin, Gunnlod sentiu-se, instantaneamente, atraída por aquele belo e esbelto intruso. Mas a sua missão de guardiã falou mais alto e ela, como que despertando de um transe, empertigou-se toda. Na sua mão direita havia um arco com uma flecha pronta para o disparo.

 

Gunnlod - A guardiã do hidromel

Gunnlod – A guardiã do hidromel

Os dois ficaram olhando-se durante um bom tempo, até que Odin colou os seus lábios aos de Gunnlod. O aroma do caldeirão envolvia a ambos numa fumaça avermelhada que dissipou qualquer resistência que pudesse haver no coração da jovem guardiã que, em momento algum, teve consciência do seu fracasso, senão, de que algo, infinitamente mais belo que uma simples missão apresentara-se em sua vida.

Depois de muito tempo, Odin, tendo ainda a jovem em seus braços – mas já deitados -, reclamou que tinha muita sede e pediu para provar o hidromel. Gunnlod deixa então Odin provar do caldeirão. Odin encontrou três enormes taças e as encheu a ponto de esvaziar completamente o caldeirão. Depois, emborcou-as pela boca como quem estivesse havia anos sem beber uma única gota. Quando retornou para se despedir, percebeu, no entanto, que Gunnlod dormia.

Mas ela não estivera nunca dormindo, nem nunca diriam dela que fora enganada. Desta acusação, que ela julgava a pior, ela fazia questão de estar livre.

Odin partiu à toda pressa, mas quando percebeu que Suttung vinha atrás dele transformado em uma águia sedenta de sangue – como ele descobrira o seu plano, jamais ficaria sabendo -, transformou-se também em outra velocíssima águia.

Principiou-se, então, uma perseguição alucinante pelos ares gelados da cordilheira que se estendeu por milhares de quilômetros até que, finalmente, viu brilhar ao longe as torres douradas de seu amado palácio Gladsheim, em Asgard.

Odin deu um grande grito de alerta, o que fez com que todos os habitantes da morada dos deuses corressem, logo, a espalhar pipas enormes e jarros de todos os feitios pelas ruas. Então, Odin-águia começou a regurgitar todo o hidromel que havia ingerido na caverna de Gunnlod sobre os recipientes, de tal sorte que em três voltas inteiras que deu sobre a cidade havia expelido de seu estômago até a última gota da saborosa bebida. Suttung, ao ver que os deuses recolhiam rapidamente os jarros e cubas, reconheceu-se vencido e, com um grande grito de ira, partiu de volta à sua terra.

E foi assim que, graças a uma sedução e a um traiçoeiro furto, o hidromel passou a ser a bebida predileta dos deuses.

De posse dos deuses, a bebida passou a ter propriedades proféticas e poéticas, não sem antes ser ensinada aos mais sábios e talentosos mortais, significando que seu consumo traria uma espécie de epifania mágica capaz de levar os homens, tanto à sabedoria do mundo mágico dos deuses quanto à imaginação poética dos recitadores de mitos e fábulas celestes. Entre mito e história, o doce hidromel surgiria aos mortais, quase que como uma fermentação mágica sussurrada nas mentes mais esclarecidas.

Verdade ou não, o hidromel faz parte da cultura de muitos povos antigos, e como bebida destes povos, era servido em cerimoniais, utilizado nas libações ou mesmo como bebida de poetas e profetas mágicos, vinculando nas mentes ébrias o mundo material dos homens ao mundo imaterial dos deuses. Neste sentido, tais mitos não deixam de integrar a história destes povos.

 

Fontes:

http://fantasticocenario.com.br/2011/10/15/hidromel-entre-mito-e-historia/

http://www.mitologia.templodeapolo.net/mitos_ver.asp?Cod_mito=153&value=O%20roubo%20do%20Hidromel&mit=Mitologia%20N%C3%B3rdica&prot=Odin&lnd

 

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ZineCast #8 – Uma Mitologia Nórdica muito louca!
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