Abelhas nativas se tornam rainhas na alta gastronomia de badalados restaurantes

Abelhas nativas se tornam rainhas na alta gastronomia de badalados restaurantes

Abelhas nativas se tornam rainhas na alta gastronomia de badalados restaurantes: A palavra “abelha”, digitada no Google, traz dezenas de imagens muito parecidas: são seres alados, quase sempre incluindo como características um abdômen listrado de amarelo e no final dele o temível ferrão, pesadelo de muita gente. Mas sua principal característica é a diversidade. Há cerca de 20 mil espécies no mundo, sendo que 300 não possuem esses ferrões. “Queremos quebrar o estigma de que a abelha é perigosa e seu mel serve apenas como remédio”, diz Eugênio Basile, 58 anos, que junto com a esposa Márcia, 56 anos, fundou a Mbee, empresa que vende e distribui mel de uma espécie de abelha com ferrão, a Apis mellifera, e outras 12 espécies sem ferrão, também chamadas de abelhas nativas.

Educação e formação

Com elas, mais do que criar esses insetos e processar o mel, o casal está educando o consumidor ao levar uma novidade para o universo da alta gastronomia na cidade de São Paulo: o mel, e as abelhas nativas sem ferrão, estão indo para dentro dos restaurantes, em espaços exclusivos dedicados a elas. Como no Evvai, de cozinha italiana, um dos nove restaurantes da capital com estrela no famoso guia francês Michelin. O mel, brilha no cardápio com quitutes como o “pão de mel de abelha nativa”.

Das espécies criadas pela Mbee, a jataí é o carro chefe do projeto de educação do consumidor, porque ela se adapta ao ambiente urbano. Basta utilizar uma caixa de madeira para abrigar o enxame das abelhas. “Não existe nenhuma dificuldade para criar este tipo de abelha. Coloca-se a caixa em uma área arborizada e as abelhas fazem o resto do trabalho”, afirma Basile.

Ações sustentáveis

Com o projeto para popularizar o cultivo na cidade, iniciado em 2019, a Mbee já espalhou 45 caixas por bairros como Vila Madalena, Pinheiros e Barra Funda. Elas ficam em áreas externas aos restaurantes e os funcionários do estabelecimento recebem instruções de como coletar o mel. “Muitos países possuem itens especiais para a gastronomia. A Itália tem a trufa branca e o Brasil possui o mel de suas abelhas nativas”, diz o meliponicultor.

Abelhas nativas se tornam rainhas na alta gastronomia de badalados restaurantes: Alta gastronomia

Reprodução/Restaurante ManuReprodução/Restaurante Manu

Em Curitiba, a chef Manoella Buffara também investe na versatilidade dos méis nativos em pratos com peixe e carne de caça.

Chefs famosos já perceberam o valor desses animais e se renderam a eles, como Alex Atala, que comanda casas como o DOM e o Dalva e Divo; Bel Coelho, chef do Clandestino; e a paranaense Manoella Buffara, do Manu.

Versatilidade

“O mel de abelhas jataí tem uma característica mais ácida, uma textura mais fluída, cor bem dourada, muito saboroso e aromático”, explica Manoella à Forbes. “Já usamos mel de jataí em muitos pratos do Manu. Atualmente, usamos na manteiga que fazemos no restaurante e para marinar peixes crus. Esse mel é suave e muito versátil e pode ser usado em diferentes receitas, como tempero de saladas à carpaccio de peixe.”

O ingrediente pode trazer muita brasilidade aos pratos, mas o consumo interno é pequeno, sendo um dos menores do mundo. São cerca de 0,07 quilos per capita ao ano, enquanto em países como a Alemanha o consumo é superior a um quilo e nos Estados Unidos é de 0,6 quilos per capita ano.

Entreves culturais

De acordo com o Etene (Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste), departamento do Banco do Nordeste, onde está a maior região produtora do país, “grande parte da população brasileira percebe o mel como um medicamento, sendo um dos principais fatores que explicam o baixo consumo deste produto no país”. Daí a importância de projetos em mostrar as abelhas como parte da culinária, porque há potencial de crescimento do mel como alimento. O estudo do Etene também aponta que “o consumidor brasileiro de mel possui poder aquisitivo mais elevado, sendo, portanto, exigente quanto a padrões de higiene, valores nutricionais e praticidade”.

Criação na fazenda das abelhas

A produção da Mbee fica na fazenda Itaicá, de 210 hectares, no município de Atibaia, a cerca de 70 quilômetros da capital paulista. A criação começou em 2014 e representou uma mudança de vida do casal Basile. “Márcia começou a trabalhar com a Mbee logo após fechar sua fábrica de sapatos artesanais”, explica Basile. “Na mesma época, descobriu o potencial da fazenda para o cultivo das abelhas e começou a se dedicar.” A outra opção às abelhas, caso não tivessem encontrado a vocação da terra, teria sido a sua venda. Hoje, além das abelhas, Basile planta eucalipto e cria bovinos meio sangue angus.

Abelhas nativas se tornam rainhas na alta gastronomia de badalados restaurantes: Homem segura placa

Junto com a esposa Márcia, Eugênio Basile cultiva 13 diferentes espécies de abelha em fazenda no interior de São Paulo

Em 2020, a Mbee produziu 1.500 quilos de mel de abelhas nativas sem ferrão. Além das nativas, a produção também incluiu 120 mil quilos de mel da Apis. O volume tem sido constante nos últimos anos.

Cuidados especiais

A diferença de produção de um ciclo para o outro é determinada pelas espécies nativas, mais do que qualquer outro fator. “Não é possível cultivar abelhas nativas em larga escala e com maquinários, porque elas exigem cuidados especiais”, diz Basile. “É um ingrediente gastronômico de alto valor e que sempre será feito pelos produtores menores”.

Além do valor para a alimentação, Basile ressalta que “embora o mel de Apis seja o mais produzido no Brasil, as abelhas nativas possuem uma importância imensa para o nosso ecossistema”. Segundo um dos maiores estudiosos em abelhas, o geneticista, agrônomo e professor na Universidade de São Paulo, Warwick Kerr, falecido em 2018, os insetos nativos sem ferrão são responsáveis pela polinização de até 90% das espécies da Mata Atlântica.

Retribuição

“Agora, na terceira idade, depois de tanto que já conquistamos na vida, queremos retribuir ao mundo tudo o que ganhamos através deste trabalho”, diz Basile. “Queremos trazer visibilidade à importância das abelhas para o ecossistema e o seu valor para a alta gastronomia. ”

Autor: Erich Mafra

Publicado originalmente em: https://www.forbes.com.br/forbesagro/2021/05/abelhas-nativas-se-tornam-rainhas-na-alta-gastronomia-de-badalados-restaurantes/

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